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Arenas brasileiras

roosevelt2Sou do tempo em que se ensinava — e às vezes até se aprendia — Latim nas escolas. Não sei por qual razão o ensino da língua de Cícero foi suprimido. Sinal dos tempos? Sei lá! Só sei que a ausência dessa disciplina nas escolas é por muitos estudiosos considerada um desastre para o aprendizado da língua portuguesa. Os exemplos estão em toda parte, inclusive nos mais diversos meios de comunicação, como jornais, rádios e TVs. Um caso gritante, apontado em artigo de jornal no qual me apoio é o da palavra "arena" agora empregada para designar estádios onde se praticam esportes, como o futebol, o basquetebol, o vôlei e onde se assiste até a shows musicais. Não é preciso ter tido aulas de Latim para saber que o vocábulo latino "arena" é o étimo de nosso substantivo areia. Ora, se qualquer pessoa sabe disso até por uma intuição elementar, é no mínimo curioso, para não dizer coisa ainda mais grave, como nossos locutores e comentaristas de futebol, debruçados sobre um gramado verde-verdinho, chamam-no de "arena", numa impropriedade gritante.

Nero daria boas gargalhadas. Aliás, num comportamento que já trazia latente a sua loucura final, ele gargalhava quando via os cristãos enfrentando os leões na arena — a parte central, com piso de areia, dos anfiteatros romanos. Nesse caso, se havia rictus de loucura na face do imperador, pelo menos o termo era totalmente apropriado: o chão das lutas dramáticas entre homens e feras era de areia. Está aí para prová-lo até hoje o Coliseu romano, ponto muito apreciado pelos turistas que visitam Roma.

Na Espanha, homem e touro se enfrentavam na arena das touradas de Madri, bestialidade da qual já não se ouve falar, graças ao bom-senso do povo espanhol, que afinal prevaleceu. E o sangue, do toureiro ou do animal — muitas vezes, de ambos —, jorrava sobre a areia. Também aí, se faltava sensibilidade para promover-se o espetáculo brutal, não faltava correção linguística ao denominar-se o local como arena de touros, pois o chão, no caso, sempre foi arenoso.

Mas, se o chão é de relva verdejante, é rigorosamente impróprio chamar de "arena" nossos campos de futebol, como fazem hoje locutores e comentaristas nas transmissões de rádio e TV. Não é preciso ser linguista, filólogo, ou gramático para se sentir mal diante de tamanha impropriedade. Melhor seria aplicar o adjetivo e substantivo masculino "gramado" como sinônimo de campo de futebol. O diabo é que erros infelizmente costumam se espalhar como uma peste, e nem será exagero dizer que, neste caso, o equívoco vem sendo tão contagioso como a peste negra que, em números redondos, matou milhões de pessoas na Europa e na Índia no século XIV.

Impropriedade escandalosa

A nova praga começou a se espalhar a partir de Curitiba. Lá, há alguns anos, funciona o estádio do clube Atlético Paranaense. Desde sua reinauguração, começou a ser chamado de "Arena da Baixada". Não sei que Baixada é essa, mas sei que a falta de espírito crítico leva as pessoas a repetirem bobagens sem qualquer raciocínio. Assim, o rastilho, aceso na capital do Paraná, espalhou-se por todo o Brasil. Agora parece que querem banir em definitivo o bom e velho termo estádio, na Grécia antiga apenas uma medida de comprimento, mas que evoluiu até seu sentido atual sem dar saltos, como recomendam a natureza e o caminho normal da evolução semântica. Insensíveis a esse longo caminho percorrido pela palavra estádio em sua serena evolução, parece que querem bani-la em definitivo do nosso léxico.

Recentemente, o tão tradicional Estádio Independência, do simpático América mineiro, foi reinaugurado depois de uma ampla reforma. Mudou-se quase tudo e, nessa ânsia de mudar por mudar, o nome antigo foi junto: agora é "Arena Independência" como com certo desencanto, quem está na arquibancada (ou vendo pela TV) pode ler no teto do espaço onde ficam os reservas.

Arena pra cá, arena pra lá, arenas pululam por todo o Brasil. A denominação "arena", carregando sua escandalosa impropriedade semântica, tem se repetido como doença contagiosa de Norte a Sul. Espera-se que o nosso Maracanã, templo do futebol no Brasil, ao ser reinaugurado no ano cuja entrada estamos na bica para comemorar, não nos dê o vexame — que seria lamentável, para não dizer criminoso — nem o desgosto de reabrir como "arena Maracanã".

Roosevelt Holanda é mossoroense, jornalista radicado no Rio de Janeiro há 50 anos.

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