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‘’A MORTE E AS CRIANÇAS’’

Criado em Sexta, 08 Junho 2012 02:24

katarina gurgel1- Devemos falar de morte com as crianças?

Sim, se isso for uma demanda dela sim, não há porque esconder ou disfarçar um tema que faz parte da vida e a morte permeia o imaginário infantil. Tudo que está vivo um dia irá morrer, é um ciclo natural, as pessoas, os bichos, as plantas, nascem, crescem, se reproduzem e morrem, acontece que esse assunto é evitado por vários motivos, dentre os mais comuns porque temos a sensação que evitando falar, afastamos a possibilidade da morte, é um mecanismo de defesa do ser humano, o outro, perpassa pela dificuldade que temos de explicar o inexplicável, quando na verdade a morte é simplesmente deixar de viver, simples assim e profundo também; acontece que esse tema vem à tona justamente quando estamos muito sensibilizados pela perda de um ente querido, daí nesse instante, sofremos e não conseguimos transmitir de forma tranquila esse processo que encerra um ciclo da existência de um ser vivo.
Temos agora um bom motivo para falar sobre esse tema com a celebração do dia dos finados, acho um bom momento para explicar às crianças o porquê desse dia ser reservado para nos lembrarmos dos mortos, pois eis o que o tempo não mata: a memória afetiva.

2- A partir de que idade se deve falar de morte com as crianças?

Não existe idade certa para tocar no assunto. Oriento a esperar a necessidade, seja pelo falecimento, pela morte de um bichinho de estimação, pela passagem por um cemitério, enfim, se a criança traz a curiosidade, deve-se aproveitar a oportunidade e discorrer sobre o tema.
Acho pouco provável que uma criança antes do 4 anos de idade entre nesses questionamentos, pois é só a partir dos 4 ou 5 anos que elas começam a entender as relações da vida e a ter acesso maior às informações, justamente porque começam a perceber o mundo de uma forma diferente, mais consciente, mais apropriada. O que se deve fazer é ir educando a criança através de exemplos práticos do ciclo da natureza, ou do bichinho de estimação como o peixinho (ele é frágil e seu ciclo de vida é menor dentre os outros animais de estimação), cantigas, livros infantis e filmes que tratam do assunto também ajudam.

3 - Como deve ser o conteúdo dessa conversa?

No tema discorrido, a criança precisa entender 3 pontos básicos:
a- A universalidade – tudo que é vivo um dia vai morrer.
b- A irreversibilidade – quando morre, não há volta.
c- A não-funcionabilidade – depois de morto, o ser não corre, não dorme, não pensa, não age.
Ou seja, em hipótese alguma deve-se dizer frases feitas como: “o vovô viajou”, “a mamãe tá dormindo no céu” pois a criança personifica a morte, ela atribui uma realidade de acordo com o que lhe é explicado, não raro encontro crianças sofrendo muito querendo pegar um avião para visitar a mãe no céu, ou pegam o celular e pedem para ligar acordando seu avô, além disso, é importante salientar que a criança imagina que ela mesma é capaz de escapar ou enganar a morte, por isso a importância de frisar esses três pontos acima, pontuando porque precisamos tomar cuidado na piscina, ao atravessar a rua.

4. Crianças podem ir a velórios ou enterros?

Sim, sem forçar, sempre oriento que a criança precisa participar desse ritual, pois vai ajudá-la a entender que esse ente querido morreu, não voltará mais, ajudará a fechar um ciclo e a evitar que ou a criança fique alienada no desejo de ter o ente de volta ou postergue muito tempo num processo de NEGAÇÃO (fase do processo de elaboração do luto no qual a criança/adulto não acredita que o ente morreu) do luto. Não se pode forçar, mas elas se beneficiam de participar junto aos adultos deste ritual de passagem.
a- Deve-se explicar o que é um velório e um enterro e pergunte se ela quer ir. Mas nunca decida pela criança a deixá-la de fora.
b- Explique o que ela irá encontrar lá e não esqueça de falar que terá pessoas tristes e chorando porque nunca mais voltarão a ver essa pessoa, que é uma despedida para sempre.
c- Pontue que ela pode expressar o seu sentimento, portanto que pode chorar se tiver vontade, que se não quiser chegar perto da pessoa, não será necessário, enfim, que ela pode ir até lá para se despedir, mas que não é obrigada a fazer nada além do que dá tchau.
d- Ficar atenta às cenas comuns de profunda dor (alguns acessos histéricos) de parentes próximos e ter bom senso para afastar a criança desse ambiente, pois ela não saberá diferenciar o choro de uma dor emocional para aquela de dor física e isso a confundirá, assustando-a.
Não se preocupem, velórios e enterros não traumatizam as crianças.

5 - Como contar para elas que alguém que conhecem morreu?

Não esconda nada, muito menos invente histórias para poupar os pequenos. Frases como “ele dormiu para sempre”, “descansou” ou “fez uma longa viagem” só vão confundir a cabeça infantil. Crianças levam tudo ao pé da letra e podem achar que a vovó vai acordar ou que todo mundo que viaja nunca volta.
É muito comum também usar a famosa “o vovô virou uma estrelinha”, que pode levar a criança a acreditar nisso literalmente e ficar elaborando maneiras de chegar até ele. “As crianças de até cerca de 10 anos não abstraem. O seu psiquismo em construção não consegue captar os conceitos subjetivos. Elas pensam de forma concreta e constroem os conceitos a partir do concreto”.
Seja simples e direto, ex: A vovó morreu!!! Ela parou de viver, isso quer dizer que ela não sente mais dor, mais frio, mais fome e não irá voltar mais, nunca mais, por isso eu estou indo agora até o velório (explica o que é o velório e enterro), pois quero me despedir dela, fazer uma oração (pode pontuar o ritual religioso), e dizer pela última vez que eu a amo muito, gostaria que você viesse comigo para fazer o mesmo, você gostaria de se despedir da vovó??? Caso a criança diga que não, é importante ajudá-la a compreender o que significa esse momento, a importância desse ritual de despedida, pois a criança que consegue ir até o velório e participar dessa passagem conseguirá com mais tranquilidade para elaborar o luto.

6 - Quando a criança pergunta sobre o morrer o que devemos falar?

Primeiro é importante elaborar seus próprios conceitos sobre a morte, pois antes de tudo você tem de acreditar naquilo que fala para a criança. Em seguida é importante dizer-lhe que existem outras formas de pensar sobre a morte e que você não sabe tudo e abra um canal de comunicação onde ambos poderão encontrar as próprias respostas sobre a morte, ajudando-o a elaborar sua própria definição sobre a morte. Seja sempre honesto e não tenha medo de dizer não sei.
Enfim, o tema morte deve ser discutido de forma natural e tranquila, lembrando que as recordações, a memória afetiva nunca desaparecerá, e que depois de certo tempo acontece o chamado luto saudável, quando se percebe que é possível se lembrar do ente querido de forma leve e sem sofrimento.

7. E quando morre alguém na família, qual a melhor forma de ajudar a criança durante o luto?

Demonstre-a que você também está sofrendo, que sente muitas saudades e abra um espaço de comunicação no qual ela possa expressar seus sentimentos dando-lhe apoio e acolhimento. Não esconda sua dor, nem seu sentimento, também não faça da criança o seu confessor, mas demonstre que é normal ficar triste pela morte de alguém que amamos muito e que nos fez felizes, que a saudade é natural, mas que ela tende a amenizar ao ponto de conseguirmos conviver com ela, agindo dessa forma a criança se sente livre para também expressas suas tristezas e suas dores.
Muitas vezes não precisamos falar muito, nem criar teorias ou filosofias acerca do tema, garanta-lhe que ela nunca estará sozinha, que sempre haverá alguém que cuidará dela e providencie para que ela retome suas atividades rotineiras o mais rapidamente possível.
Não é necessário excluí-las das conversas, da tristeza. Ouça o que elas têm pra falar ou peça para que desenhem o que estão sentindo.
Fique atento às mudanças bruscas de comportamento ou a uma suposta aceitação, algo tipo: “Ele é muito forte, está lidando muito bem com a morte dos pais, parece que nem sente...!. Uma regressão no comportamento é esperado como: choro constante, brigas na escola, voltar a fazer xixi na cama, hiperatividade ou muita passividade, se esses sintomas persistem por mais de seis meses é importante buscar a orientação psicológica.

8 - O dia de finados está chegando, a senhora acha que a criança deve ir ao cemitério?

Isso depende de cada criança, do que ela está demandando, de cada família e de como é para essa família fazer visitações no cemitério, qual o valor simbólico que ela atribui a essa ida, como eles percebem esse espaço, qual a informação que eles querem passar para a criança, se a criança tem curiosidade de saber como é esse local onde o ente foi enterrado e se esse é um desejo da criança. Então não tem o certo nem errado nesse aspecto, vai depender de qual significado e para que função se leva a criança ao cemitério, de qualquer forma, é um espaço que deve ser pontuado como especial, de respeito e porque não dizer sagrado por abrigar o físico de pessoas tão amadas.
“Ninguém pode fugir ao amor e à morte”. (Públio Siro)

Ana Katarina Gurgel é psicóloga infantil há 15 anos, atua como psicomotricista relacional há 14 anos, é especialista em psicopedagogia, psico-oncologia, acupuntura tem vasta experiência em avaliação psicológica sendo credenciada junto à Polícia Federal como perita psicóloga à avaliação psicológica para porte de arma. É servidora pública municipal com vínculos como psicóloga e psicopedagoga.
Atualmente atende crianças a partir de 1 ano e meio até 12 anos de idade em seu consultório em Mossoró/RN e forma novos psicomotricistas relacionais no CIAR - Centro Internacional de Análise Relacional em Fortaleza/CE.
Fone para contato: (84) 3065-7172
e-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Comentários   

 
0 #1 Luciana Veltrone 06-05-2017 21:16
Olá Ana Karina.
Meu nome é Luciana e sou mãe de Pedro, um menino muito especial, de cinco anos. Por ser uma criança muito diferente; extremamente sensível e muito além da sua idade biológica, estou com uma inquietação, no mínimo preocupante. Recentemente, perdemos uma amiga muito próxima, inclusive dele e, desde então, ele desenvolveu um gosto extremado por morte e cemitérios. Seus assuntos, desenhos e brincadeiras infantis sempre têm como pano de fundo esses temas.
Estou ficando muito preocupada, por favor, me ajude.
Aguardo resposta.
Atenciosamente, Luciana
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